domingo, 3 de agosto de 2008

Encarnação do Demônio




Em 1998, mais ou menos, soube que José Mojica Marins voltaria a filmar e estava selecionando atores.

Telefonei à produtora dele, que me marcou um "teste de coragem".

Fui perguntar a meu pai, cinéfilo e conhecedor da cinematografia de Zé do Caixão e talvez pessoalmente do próprio, o que seria o tal "teste de coragem". Meu pai falou que talvez o Marins me desafiasse a ter baratas passeando pelo meu corpo, segurar ratos, cobras, sapos...

Não tive coragem de ir. Tiraria de letra os ratos, cobras e sapos, mas... baratas?

Os anos foram se passando e nada de filme novo de José Mojica Marins, embora ele continuasse anunciando na televisão que faria um filme. E sempre dava o telefone para o tal "teste de coragem".

Em 2001, tive o prazer de conhecer sua filha Nilze Marins [uma gata], que também queria ser cineasta. [Não achei nada sobre ela na internet]. Questionei a ela sobre o fato de seu pai prometer fazer um filme e não fazer e ela ficou aborrecida comigo.

Em 2002, quando fui participar do filme de Dennison Ramalho, "Amor Só de Mãe", ele me disse que estava produzindo a terceira parte da trilogia original do Zé do Caixão, que incluía os filmes "À meia-noite levarei sua alma" e "Esta noite encarnarei no teu cadáver".

Vi Dennison Ramalho pela última vez em 2003, acredito, quando fui assistir no cinema, pela primeira vez, ao filme "Amor Só de Mãe".

De lá para cá, Dennison só me respondeu um único e-mail e desapareceu. Até na produtora "Olhos de Cão", ninguém atendia ao telefone.

No ano passado, tive vontade de procurar pelos filmes de Jairo Ferreira. Através do Porta-Curtas Petrobrás, soube que os filmes estavam em mãos de Paulo Sacramento, também da produtora "Olhos de Cão".

Não consegui encontrar Paulo Sacramento de jeito nenhum. Desde que havia filmado "O Prisioneiro da Grade de Ferro", Sacramento também havia desaparecido.

Agora soube que eles de fato continuaram produzindo a terceira parte da trilogia de Zé do Caixão, chamada "Encarnação do Demônio".

A primeira coisa que pensei foi: "A Volta dos Mortos-Vivos". Ou mais especificamente, "A Volta dos Três Mortos-Vivos", porque muita gente chama ao cineasta José Mojica Marins de "morto-vivo". Ou pelo menos, alguém que deveria ter se aposentado nos anos 70.

Eu sou do tipo que valoriza a obra de uma pessoa. Tiro sarro mas não massacro ao Ronaldinho, porque não me interessa se ele não sabe a diferença entre mulher e travesti, nem entre mulher bonita e canhão. Ou o fato de estar barrigudo. O que me interessa é o que ele já fez pela seleção brasileira, como a extraordinária atuação na final da copa de 2002. Se eu fosse técnico da seleção brasileira, escalaria Ronaldinho mesmo que ele estivesse em cadeira de rodas, apenas para ficar na beira do gramado me dando palpites.

Portanto, diferente do que alguns críticos radicais dizem, José Mojica Marins deve continuar filmando, mesmo que seja um morto-vivo. Mesmo que seus filmes não sejam lá mais estas coisas. Porque José Mojica Marins é um dos grandes monumentos da cultura brasileira e realizou provavelmente os mais interessantes filmes brasileiros.

É claro que vou assistir a "Encarnação do Demônio". Assim como já assisti milhares de vezes e continuo divulgando o filme "Amor Só de Mãe". Até porque recebo e-mails de fãs deste filme até hoje, isto porque apareço 15 segundos no filme.

E também assisti e adorei o filme "Prisioneiro da Grade de Ferro".

Caso conheça o artigo sobre Jairo Ferreira, Paulo Sacramento e Dennison Ramalho devem querer minha cabeça numa bandeja.

Mas eu ainda considero Dennison Ramalho meu amigo e ainda vou insistir com Paulo Sacramento para que ele relance os filmes de Jairo Ferreira. E mais: que filmes seus roteiros inéditos também.

E pensando bem, o fato de José Mojica Marins estar produzindo um filme há dez anos me faz pensar numa coisa: eu também sou um morto-vivo. E um morto-vivo dos chatos, que fala mal de outros mortos-vivos.

Eu tenho 37 anos e tenho a fantasia de que um dia serei alguém nos ramos literários e artísticos. Se eu tivesse vergonha na cara, teria seguido o conselho do meu pai e teria, aos 17 anos, abandonado as utopias e começado a trabalhar numa loja de sapatos. Mas não... até hoje sou esta merda de pseudo-escritor e pseudo-artista que assombra a blogosfera.

Devo desistir? Claro que não. Tem um outro lado meu que não me deixa desistir: o lado irônico e sarcástico. Gosto de infernizar a vida dos outros com as bobagens que escrevo, canto e filmo. Deve existir um pouquinho de Zé do Caixão em mim também.

PS: Dennison me mandou mensagem dizendo que também me considera seu amigo.

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