quarta-feira, 13 de agosto de 2008

O movimento Mumblecore, criado por jovens americanos, cria uma nova maneira de fazer e difundir filmes



Uma nova maneira de fazer e distribuir filmes tem sido capitaneada há cinco anos por um grupo de despretensiosos garotos da classe média norte-americana.

São produções de baixíssimo orçamento, que usam recursos ordinários como câmeras digitais amadoras e situações e cenografia improvisadas, para dar conta dos contratempos típicos de adolescentes recém-saídos da universidade. O fenômeno foi batizado de “Mumblecore” -algo como geração do resmungo-, logo chamou a atenção da crítica especializada e chacoalhou o panorama independente americano.

Em matéria publicada no jornal “The New York Times”, Dennis Lim escreveu que os integrantes “evidenciam uma sensibilidade característica do século 21, decorrente do modelo myspace de relacionamento social e também reflexo do voyeurismo praticado em sites como o youtube”.

O que se vê na tela são personagens vacilantes em ocasiões mundanas, discutindo banalidades com a namorada(o) ou amargando o término de um relacionamento. Quase sempre há presença da tecnologia no enredo, realçando como os novos meios virtuais podem alterar o comportamento dos jovens.

As imagens captadas em tom casual no interior de apartamentos ou festas de faculdade aparecem como se fossem diários audiovisuais, aos moldes de um filme-blog, cujas confissões descrevem o mal-estar de uma geração, a dos 20 e poucos anos. Os personagens mostram-se desajustados frente ao mundo, inseguros diante das imposições do amadurecimento e hesitam nos relacionamentos quando têm a necessidade de tomar decisões a longo prazo.

De tanto falarem e pensarem (os diálogos da maioria dos filmes fluem de forma disparatada), pouco fazem de fato. A turma Mumblecore foi inicialmente reconhecida graças aos trabalhos de Andrew Bujalski, 30 anos, nome apontado como pioneiro do grupo.
Após estudar cinema em Harvard, escreveu, atuou e dirigiu seu primeiro longa-metragem, “Funny Ha Ha” (2002), e impressionou pelo naturalismo tanto do comportamento dos personagens, quanto das situações rotineiras e aparentemente banais retratadas no filme.
O próprio Bujalski faz o papel de um nerd que tenta se aproximar de Marnie, uma garota de 24 anos, que sofre uma desilusão amorosa ao ver seu pretendente se casar com outra. Os dois passam a compartilhar momentos de consolo, sem saber ao certo o que querem exatamente com isso, apenas jogam conversa fora durante uma disputa de basquete ou no meio de um jogo de xadrez. Em busca de uma guinada no marasmo da sua vida, ela formula uma lista de “coisas a fazer”.

Os itens variam desde “tornar-se uma cozinheira melhor” até “fazer exercícios”, passando por “deixar de beber durante um mês”. Numa conversa entre Marnie e Mitchell, o personagem de Bujalski, ele comenta que ela parece um pouco deprimida. Ela responde dizendo que está apenas cansada. Então ele pergunta em seguida: “o que você quer da vida?”. “Eu não quero nada”, diz Marnie.

O filme foi rodado em 16 mm, com poucos milhares de dólares e distribuído por conta própria, no esquema conhecido nos EUA como DIY (do it yourself), sigla também usada para definir a geração dos Mumblecore. Muitos deles não contam com o sistema tradicional de distribuição de filmes e acabam fazendo suas próprias cópias de DVD em casa e vendem pela internet. Só para se ter uma idéia, Bujalski teve de rodar Nova York durante seis meses até encontrar um lugar onde seu filme fosse aceito e exibido.

O nome seguinte a surgir após o aparecimento de Bujalski foi o de Joe Swanberg, de 26 anos. Em 2005, finalizou seu primeiro filme, “Kissing on the Mouth”, com suporte digital e sem trabalhar com roteiro, abusando de diálogos improvisados. Convidou um grupo de amigos sem experiência de atuação para participar do projeto. “Kissing on the Mouth” aproveita a onda lançada por Bujalski para tratar das turbulências vividas por um casal de adolescentes recém-formado e em busca de espaço profissional.

O naturalismo é adquirido aqui na maneira como os personagens conversam entre si, um atropelando o discurso do outro, sendo que várias vezes as falas são entrecortadas ou interrompidas no meio. Swanberg interpreta o namorado de Ellen (Kate Winterich), uma garota de classe média que mantém um caso fora do relacionamento. Patrick, o namorado, trabalha em casa colhendo depoimento de jovens a respeito de traição, casamento e relação com os pais.

Apesar de repetir temas recorrentes ao movimento -vida conjugal, rompimento de namoro, problemas com os pais etc.- Swanberg aposta na exibição despudorada dos personagens a fim de atiçar o moralismo. Em uma das cenas, ele aparece em nu explícito se masturbando debaixo do chuveiro. Em outra seqüência, Ellen discute com a amiga sobre o uso de vibradores. Os tipos de “Kissing...” têm algo em comum: espanam em refúgios infantis quando confrontados no mundo dos adultos.

Este primeiro longa de Swanberg estreou em 2005 no festival South by Southwest, em Austin, no Texas. O diretor do evento, Matt Dentler, foi o maior responsável por impulsionar o movimento Mumblecore e lançar ao público nomes como Bujalski, Swanberg e Jay Duplass, diretor de “The Puffy Chair”, obra que segue a mesma linha. Nessa edição do evento, Dentler disse que estava à procura de “filmes que outros festivais jamais dariam a chance de serem exibidos”.

O encontro ajudou a convergir interesses de jovens americanos espalhados pelo país e tornou-se o lugar ideal para a troca de idéias sobre os filmes que estavam sendo produzidos. Ali eles se conheceram e passaram a cooperar em diferentes projetos, assim nasceu o mumblecore. Após o encontro, Duplass criou o roteiro junto com Swanberg para o filme “Hannah Takes the Stairs” (2007), dirigido pelo último, que conta também com a participação de Bujalski como ator.

Apesar do termo mumblecore ter sido sugerido em um bar pelo editor de som dos filmes de Bujalski, Eric Masunaga, há três anos, ao longo do tempo outros nomes foram cunhados e passaram a acompanhar os filmes dessa geração. Eles já foram chamados de “slackavettes”, em referência ao patrono do cinema independente americano John Cassavetes, de “geração DIY (do it yourself)”, enquanto outros falam de “myspace neo-realismo”.
Em cinco anos de vida, o movimento já rendeu 14 longas-metragens. Além de Bujalski e Swanberg, a trupe ainda conta com os irmãos Duplass -de um dos filmes mais bem recebidos da geração, “The Puffy Chair” (2005), road movie que acompanha a viagem de um casal de namorados que vai buscar uma poltrona comprada pela internet para dar de presente- e Aaron Katz, 26 anos, diretor de “Dance Party USA” (2006).

Ainda que o fenômeno Mumblecore tenha ganhado notoriedade pela autenticidade estética e frescor de conteúdo, algumas fórmulas parecidas já foram testadas por grandes mestres do cinema independente que hoje figuram no mainstream, como Richard Linklater, cuja dobradinha “Antes do Amanhecer” e “Antes do Pôr-do-Sol” empresta o tom casual da conversa entre os personagens, e Gus Van Sant, cineasta fascinado pela estranha resignação da juventude atual.

Mesmo filmes bem recentes, como “Eu, Você e Todos Nós” (2005), da videoartista e diretora de cinema Miranja July, servem como ponto de referência para se estabelecer uma relação com a geração atual. Assim como no filme de July, os jovens mumblecore parecem buscar a todo custo uma maneira de se comunicar e contar suas próprias histórias. E por isso às vezes soam como relatos narcisistas e egocêntricos.
Em depoimento à revista “Filmmaker”, Joe Swanberg disse: “Eu não sinto que eu tenho algo a dizer agora sobre a guerra do Iraque, as histórias da minha vida e dos meus amigos são as únicas que eu posso contar”.

Querer aglutinar tendências pode ser um caminho prático para simplificar a complexidade de cada autor, mas é quase impossível examinar as obras desses jovens cineastas e não amontoá-los debaixo de uma estética comum. Não somente devido ao naturalismo com que filmam situações casuais, mas principalmente por revelarem uma juventude atordoada com o despropósito de suas vidas e insegura com o futuro que lhes espera.

Publicado em 2/5/2008
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Fernando Masini
É jornalista.

Wallace Puosso
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www.nasasasdocinema.com.br
http://celebreiros.zip.net

"Arte pra mim não é produto de mercado... Arte pra mim é missão, vocação e festa." (Ariano Suassuna)

Um comentário:

wallace disse...

Joca, estou participando de um novo projeto coletivo, com um pessoal de Santa Catarina. entre e verifique:http://www.linha300.blogspot.com/