segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Isso tem que ser assim?





Flora sentiu o lampejo de um crisântemo disfarçado e conciso. Abriu as comportas da alma e se represou. Cheirava estrela aquele crisântemo, mas Flora esqueceu que estrelas são inatingíveis e se entregou a música que ele trazia nos olhos especialmente ao arco-íris pendurado em cada dedo. Não decretou segredo, nem hesitou. Degustou o sumo mais próprio e escutou Djavan enquanto bebia licor de amora:



“Por ser exato o amor não cabe em si/ por ser encantado o amor revela-se/por ser amor invade e fim”.



Ela sabia de cór o abecedário daquele som. Inscreveu-se na pós, acendeu fogueiras, botou roupa nova, arrumou sobrancelhas, cuidou das flores, comprou toalha vermelha, cingiu o tempo de sorte e desenhou crepúsculo com balsamo, sonhos e traquejos.

Flora não se atentou as noites de festas que agora eram de latejos nem para a luz e sombra que deu de transbordar uma quimera desconhecida e solitária, tão pouco aos gestos de reinos ardentes e cores diversas. Guardou o Djavan na segunda gaveta enquanto, checa e-mails, estoicamente cuidadosa.



Entende o propósito cantante de um paraibano chamado Francisco que arranca a lua da sua ronda ao dissertar com voz de gramofone e rosas:



“Isso que não ouso dizer o nome

isso que dói quando você some

isso que brilha quando você chega

isso que não sossega e me desprega de mim

isso tem que ser assim????”







(Zenilda Lua)

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