domingo, 4 de janeiro de 2009

Homenagem a um brasileiro
Um dos mais prestigiados museus de arte contemporânea do mundo, a Tate Modern, de Londres, reverencia a obra do artista plástico carioca Cildo Meireles.

Marcos Losekann - Londres




Arte para admirar e também interagir. O público como ator principal. O artista como coadjuvante. É a arte conceitual, genuinamente brasileira que ocupa uma área igual a meio campo de futebol. Em plena Tate Modern, de Londres, um dos principais templos da arte no mundo.

Filosófico, politizado, sedutor, intrigante. Esses são alguns dos adjetivos que a imprensa britânica tem usado pra rasgar elogios a Cildo Meireles, um artista brasileiro, que faz arte sobre temas e circunstâncias do Brasil, mas que consegue sem nenhum esforço se comunicar com o público de todo o planeta.

A curadora da Tate Modern diz que Cildo Meireles faz um dos mais impressionantes trabalhos da arte contemporânea - é um fenômeno internacional!

O público britânico concorda. Cildo é parado pelos fãs nas ruas de Londres.

A cena está no documentário sobre Cildo Meirelles, que estréia no último fim de semana da exposição na Tate Modern.

Em seu ateliê, no Rio de Janeiro, Cildo parece alheio à fama e à glória conquistadas nas galerias mundo à fora. Lá, ele prefere manter a simplicidade.

Mas por que no Brasil a arte não ganha tanto espaço, não desperta tamanho interesse?

“Eu atribuo isso ao fato mesmo da colonização. Quer dizer, Portugal não é uma cultura voltada para as artes plásticas. As artes plásticas em Portugal é, relativamente recente. Ao passo que a Espanha tem uma cultura plástica riquíssima. Você pega El Greco, Goya, que foi o primeiro artista que eu conheci e gostei, que eu ganhei um álbum do meu pai e ganhei a obra gráfica dele”, diz Cildo.

Em Londres, Cildo é star, estrela. Quinhentas pessoas, em média, visitam e se divertem com sua arte que toca nos corações e nas mentes do público e também é feita pra ser tocada.

Especialista em perspectivas, Cildo envolve os visitantes. Arte grande, arte minúscula, arte sem tamanho. O dinheiro como forma de expressão ideológica e política. O dinheiro sem valor algum. Vidro quebrado, chão inconsistente, labirintos sem fim.

Uma Torre de Babel, feita com 800 rádios ligados, cada um numa estação. Uma representação do poder espiritual e do poder material.

O divino feito de ossos, a terra inundada por um mar de moedas e a coluna de hóstias ligando as duas extremidades.

“Houve um momento mesmo que o dinheiro era o material mais barato que se encontrava no Brasil para trabalhar. Para você ter uma idéia, quando eu fiz o "Missão: Missões", que tinha 600 mil moedas de um centavo, para ter essa moedas foi preciso trocar uma nota de cinco dólares americanos”, conta Cildo.

Mas por que nem sempre o público entende a arte conceitual?

“Por uma espécie de uma ansiedade, uma angústia, uma curiosidade metafísica, eles ficam querendo saber qual a mensagem por trás daquilo. Por outro lado, se você der uma coisa totalmente abstrata, eles querem a explicação daquilo. Parte do público não entende mesmo porque não tem informações para isso. Pressupõe uma informação mínima sobre a história da arte, pelo menos a mais recente e isso não acontece”, explica Cildo.

Conceito, percepções, obra feita para ser vivida mesmo que nem sempre compreendida.

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