quinta-feira, 30 de julho de 2009

O passarinho e o falcão

Era uma vez um passarinho condenado desde o nascimento
À nunca deixar o ninho
Sua mãe zelosa ao extremo
Depois de ter o coração partido por um insensível gavião
Perdeu o gosto pela vida e passou à desconfiar do céu e da canção
E para preservar suas crias
Das garras cruéis do destino
Desencorajou-as à algum dia deixar o ninho
Mantendo-as sob vigilância cerrada debaixo de suas asas
À medida que iam crescendo e se tornando aves belas
Inventava-lhes a mãe histórias tenebrosas
Para que nunca arriscassem deixar o ninho
Para conhecer o mundo lá fora
E assim cresceram acreditando que o mundo inteirinho
Resumia-se ao seu ninho
E que tudo à sua volta era uma grande ilusão
Uma arapuca, uma prisão rodeada de gaviões
Loucos para despedaçar seus jovens e inocentes corações
Pobres passarinhos que o amor sufocante e precavido privou-os do ar!
Pássaros são seres especiais, nasceram para o céu
Nasceram para voar!
E quão prodigiosas eram suas crias!
De talento raro, pássaros de alma límpida
Mas acovardados desde a infância para a vida
E assim tudo ia seguindo sua rotina
Os pássaros crescidos sob as asas da mãe
Sedentos de curiosidade de experimentar o mundo
Mas temerosos demais para desapontar aquela que lhes trouxe à vida
Mas a natureza é velha e sábia
E na primavera, por instinto, lá estavam eles à bater suas asas
E ensaiar seus primeiros assobios...
E como eram afinados, e que asas emplumadas!
Ao mesmo tempo em que deles se orgulhava
A velha mãe ficava cada vez mais aflita e zangada com a situação
Estavam grandes, fortes, mal cabiam sob suas asas
De modo que redobrou suas ameaças
Insistindo que só seriam amados e protegidos
Enquanto estivessem sob sua guarda em seu ninho
E que qualquer arremedo de vôo, por mais tímido
Logo atrairia a atenção dos perversos gaviões
Acabando com toda a paz duramente conquistada
Nesses anos à fio
E suas vidas, à partir de então, seriam só dor e sofrimento
Divididos entre a sua natureza e os rogos da mãe
Resignaram-se à ver o mundo da janela, à assobiar baixinho sua canção
A voar livre só nos sonhos
Mas um dos passarinhos queria mais
Tinha em seu coração que Deus não faria um mundo tão grandioso
E que lhe daria asas e o gosto pela canção se não fosse para voar
E espalhar aos quatro ventos sua canção...
Mas como faria?
Noite e dia sua mãe mantinha-lhe sob vigia
Remoendo feito um mantra o seu passado
Como um legado fatídico às crias
Que ousassem do mundo provar nem que fosse só um dia.
Foi então que a engenhosa avezinha teve um plano:
E de noite enquanto sua mãe dormia um pesado sono
Saiu de fininho e foi cantar junto às águas dum lago sob o luar
E assim passou à fazer todas as noites de luar
Só voltando de manhãzinha
Pouco antes do sol raiar
A mãe coitada, nem desconfiava
Pensara que a cria amansara com o tempo
E aceitara aquela vida no ninho sem mais questionar
E como foi ficando belo seu canto!
A noite silenciosa se enfeitava com sua canção
Adoçando os corações das criaturas da noite
E assim o tempo foi passando
Até que numa noite, um falcão que por aquelas bandas resolveu pernoitar
Ouviu ao longe aquela linda canção
Nunca na vida o falcão tinha ouvido algo tão belo
E seu coração cobriu-se de amor no mesmo instante
E seguindo o rastro de som daquela música radiante
A ave do sol foi ter com a lua naquele lago de verão
Quando o passarinho deu por si, o falcão estava bem diante dos seus olhos
E seu coração congelou por um instante
Lembrou das recomendações todas da mãe
Dos perigos do mundo aqui fora
E como não conhecia a diferença entre os rapinantes
Tomou o falcão por um gavião
E viu cumprir-se diante de si seu trágico destino
O falcão percebendo o terror que causara no passarinho
Abrandou seus olhos e muito gentilmente disse ao seu ouvido:
- Não tenha medo! Não vim lhe fazer mal algum! Canta nobre passarinho!
- Canta, que sua canção cobriu de amor meu coração!
Nunca na vida lhe pediram para cantar, antes lhe reprimiram como sempre o fez a mãe e agora, aquele que era o algoz, o terror de suas histórias, ali estava pedindo-lhe juntamente para fazer o que mais gostava?
Confusa e assustada, não sabia se fugia ou se cantava... Mas queria cantar, o prazer de sua vida era cantar! Então juntou toda a coragem que tinha e cantou sua melodia!
- Bravo! – vibrava o falcão – Que coisa mais linda! Cante, cante mais, cante até raiar o dia!
E assim, todas as noites vinha o falcão à beira do lago ouvir sua canção...
E passou o falcão à lhe ensinar à voar cada vez mais alto e veloz
E nossa ave heroína foi criando confiança em suas asas
Tão mitigadas por anos de repressão
E o amor foi crescendo em seus corações de maneira natural e espontânea
e criando profundas e sólidas raízes
E sem que percebessem, estavam completamente apaixonados!
E como foram felizes!
Mas numa noite, louca para rever seu grande amor
O passarinho distraído e descuidado saiu em alvoroço e, sem que percebesse
Acordou sua mãe...
Dando falta da cria, levantou atarantada, procurou por todo canto
Sem achá-la e passou a noite de vigília
Quando pela manhã chegara de mansinho de seu amoroso encontro
Deu de cara com a mãe e seu mundo de amor começou à ruir
Seu segredo fora descoberto e todos os medos de anos à fio vieram à tona
Mas o amor recém conquistado havia deixado marcas em seu coração
E ao seu modo, coração na mão, enfrentou pela primeira vez a situação.
A mãe, experiente e astuta,
Logo percebeu que aquela ousadia e vitalidade só podia ser obra do amor
E se continuasse batendo de frente, perderia para sempre sua cria
E assim decidiu ir levando a questão em banho-maria
Enquanto arquitetava um meio de romper esse arroubo da filha
E começou à questionar a natureza dos falcões
Que por trás da sua nobreza, havia muita vileza
E que não tardaria, para que este falcão enjoasse de sua cria
A desprezasse e a abandonasse sem qualquer explicação
A cria apaixonada buscava não dar atenção
O amor descoberto trouxe cores à sua vida!
Mas a dúvida é sempre inimiga dos amores
E vai perfurando o coração como água que bate insistente na dura pedra
Até que um dia a perfura
Eis que um dia enquanto fazia seu vôo rasante
O falcão foi ferido por uma pedra de uma atiradeira
E machucado, o falcão não pode ir ao seu encontro noturno
E a noite toda ela passou à lhe esperar à margem do lago
E chorou de solidão
Quando voltou triste pela manhã
Não soube esconder sua tristeza e decepção
E desabou sob o colo da mãe que viu a oportunidade perfeita
Para recuperar sua afeição
E como numa armadilha, preparou a filha
Para questionar sem tréguas o falcão por sua tão grave falta
Sabia que falcões eram orgulhosos, e não aceitariam por muito tempo sermões
Assim, aconselhou-a por fim à por fim à questão caso não fossem satisfatórias as explicações
Antes que o falcão lhe partisse o coração
Como o fizera o gavião com a mãe, renovando assim a maldição
Ainda ferido, o falcão foi na noite seguinte ao seu encontro
E como ave orgulhosa, escondeu da amada suas feridas ainda vivas
Por mais que essas lhe incomodassem e lhe tirassem o chão e a razão
E mal chegou foi sendo bombardeado por uma série de acusações
Antes que pudesse dar sequer uma explicação
Ferindo assim o seu orgulho como premeditara a mãe
E ferido na carne e no espírito
Acabou retribuindo os ataques que sofrera
Então o passarinho mortalmente magoado
E encontrando sua primeira dor no amor
Resolveu refugiar-se de volta ao seu ninho
E nunca mais na vida ver o falcão
O falcão tentou em vão encontrar o ninho
Mas nunca conseguiu
Sempre que batia às portas elas nunca se abriam
E triste entregou-se ao seu destino
Ao seu caminho de auto-sacrifício
Que vai das trevas mais densas à redenção
Trazendo consigo como alento para as horas mais duras do suplício
A memória da canção do passarinho
Cuja lembrança do amor profundo vivido
Tornou possíveis e suportáveis todas as dores do calvário necessário
Até atingir a iluminação
Já o passarinho que conheceu o amor nas asas do falcão
Nunca mais voou sozinho
Nem cantou sua canção
Vive como uma sombra triste em seu ninho
Preso à saudade da vida feliz que jogou fora
E à lembrança do amor que mandou ir embora.

Franklin Maciel

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